quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sendo sentido

Sem mente, sem eu,
sem ago, sem norma,
sem forma,
sem moral, sem patrão,
sem uniforme, poliforme,
sem diretor nem juiz,
sem peias, sem teias,
sem algema, sem mágoa,
sem tese, sem correntes, sem fronteiras, sem bandeiras nem partidos,
sendo e sentindo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Hospício

Nós precisamos entrar num acordo
Chega de brigar
Porque do jeito que as coisas vão indo
A vida não dá
Alguma coisa terá que ser feita
Para o bem de nós dois
Se não agente ainda acaba num hospício
E nossos filhos vão depois
A cada dia que passa eu me agarro
Naquela ilusão
De que um dia possamos sair
Dessa vida de cão
Vamos parar com essa guerra que aos poucos
Tá matando nós dois
Se não agente ainda acaba num hospício
E nossos filhos vão depois.


(Amado Batista)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Se o código penal proíbe o suicídio, essa proibição é ridícula.
Pois o que poderia amedrontar um homem que não teme a própria morte?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ausência

Tu lembras a rua estreita estrada tão antiga
e eu mostrava a ti uma cantiga
Uma cantiga antiga do lugar
Na rua, na paz da lua o som não se fazia
e sem querer então eu esquecia
Que já não temos tempo pra sonhar

Sorrias e a tua voz a cada instante amiga
a um só tempo em um abraço estreito
Fazia à vida, um violão, um jeito
de se fazer amar

Sorrias e a tua voz estranha estrada antiga
perdeu-se ao longe na partida
E não ficou ninguém no seu lugar
(Ednardo-CE)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sempre que esquecer dos fatos
basta ler seus devaneios.
Por vezes esteve alegre:
a vontade culpada pela vontade alegre,
re-escrevendo seus sonhos como plumas e desencontros joviais.

A letra de si mesmo
não era tão tardia como agora.

Mas o eco de seus lamentos
até hoje pode ser ouvido através da cortina.

Da verdade de seus ritos
pouco sabiam.

Velada pela incerteza do segundo seguinte.

Os olhos virgens de seus desejos
fluiam pelos lábios de outrora.

Ah!
Seus pecados se perdiam
no ceticismo de seus próprios hecatombes.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Carta III

" A maior precaução será não escrever, mas aprender de cor, pois é impossível que os escritos não acabem por cair no domínio público. Por isso, para a posteridade, eu mesmo não escreví sobre tais questões. Adeus e obedece-me: tão logo tenha lido e relido esta carta, queime-a."
(Platão, Carta III.)
Crianças acordem
De seu leito primogênito
esfacelado em lástimas
por outros heróis do inconsciente.

Despertem do sono dogmático
dos progenitores intactos
pra despertar os monstros
e fazer falar seu último deus íntimo.
(1997)

Objeto amor

Amor!
Amar!
Amante!
Amado!
O amado!
Antes que o objeto amor
mate no amante
o objeto amado.
(1997)

Nova casa

Minha casinha nova
Minha nova casinha
Uma linda casa nova
A casinha que vê o mar
tem mangueira e araçá.

Hoje cheguei nela.
Tem muitas janelas
e um lindo pomar.
(1987)

Cordas de Mim

Quando as amarras estouram
O inconsciente vai por água abaixo
Os pequenos bentivís puderam me contar.

A corda era longa,
abraçava dias, lugares,
olhares póstumos,
malabares de amores em mutação.

Brilhava sob febris sensações.

Quando as amarras estourarem
seus ritos fugirão de seu percurso.
O mais sutil recurso de alcançá-los
voará nas asas dos grandes bentivís.
Levará as cordas para lugares longínquos,
de acesso proibido.
Apenas para loucos e poucos.
Os viventes do sonho dos sonhos.

Levará povos e bandeiras,
reinos e fronteiras
para o inalcançável.
(verão 1990)

Homem Feito

Sou homem feito:
Feito de meu afeto,
do barro e do carvão,
de meu peito aberto...

Homem do coração,
coração de menino,
esperto e ladino.
Distante da moda da multidão.

Hoje sou homem feito
que não quer mais crescer.
Sou criança grande
Fantasiada de adulto.

Faço o que fazem os homens:
trabalham e trabalham.
Mas canso de trabalhar
e bebo a arte do orvalho.

Sou homem como meu pai
Que será também meu filho.
E meu pai duplamente
na imagem de menino.

Um dia serei avô
e duas vezes pai.
Estarei pronto
para não mais ser homem.
Serei apenas o som das cinzas
de quem um dia foi:
homem feito.
(primavera de 1989)

Similares em potência

O raso pode ser largo
como o fundo pode ser curto.

Agora pode ser muito
como o século pode ser pouco.

O sol pode ser fraco
e a luz pode ser pouca.

A ave pode estar morta
mas o vôo há de ser único.

O mar pode ser longe
e o cangaço, um pulo.

O amor pode ser morto
O amante pode ser todo.

O beijo pode ser doce
e o abraço pode ser tolo.

O lar pode ser mole
mas a cama pode ser dura.

O único pode ser um só.
O múltiplo pode ser o outro.

A saudade pode ser grande
Mas a mágoa pode ser tudo.
(Inverno de 1998)

Mil anos

Se o dia nascer azul
esperarei mil anos pela estrela.
Se ela não aparecer,
morrerei a esmo
na escuridão.
(Verão de 2000)

Rio que Ria

Pouco a pouco sabia
naquela tarde
que naquela margem
o rio que ia
era a parte de mim que ria
rumo ao derme
das portas que me prendiam
aquelas horas à fio
longe de meu abraço.
(Verão de 2000)